De 9 a 17 de outubro, Seia volta a ser o centro do cinema ambiental internacional com nove dias dedicados à exibição de filmes nacionais e internacionais que dão visibilidade e propiciam a reflexão sobre as grandes questões ambientais da atualidade. Foram selecionados 87 filmes de 34 países. Só na Seleção Internacional de Longas-Metragens, 10 documentários são estreia absoluta em Portugal e retratam narrativas ambientais pertinentes sobre modelos económicos, os novos desafios do ativismo ambiental, apartheid climático, migrações ambientais, espécies, habitats e exploração de recursos em cinco continentes.
Este ano, o Festival Internacional de Cinema Ambiental da Serra da Estrela, em Seia, voltou a ter uma participação significativa de filmes candidatos à Seleção Oficial – foram submetidas 410 obras (entre filmes de ficção e documentários produzidos para cinema e/ou televisão, nacionais, internacionais e obras de arte visuais, realizadas em meio digital, vídeo ou película, com temática ambiental). Dos 106 filmes da 32.ª edição do CineEco, 86 obras de 34 países integram as seis competições cimeiras do CineEco. De relevar que, no cômputo geral (filmes em exibição e os que integram a competição), o CineEco conta este ano com a participação de 144 realizadores.
Na Seleção Internacional de Longas-Metragens é de realçar um conjunto de dez obras em estreia absoluta em Portugal, incluindo filmes exibidos ou premiados em festivais de cinema de referência como Festival de Cannes, Festival Internacional de Cinema de Roterdão, Visions du Réel (França), Sundance (EUA), CPH:DOX (Dinamarca) e Thessaloniki Film Festival (Grécia).
Comecemos com duas ficções de jovens realizadoras, o melodrama clássico, ON THE SEA (Reino Unido), de Helen Walsh, que explora a tensão entre tradição e natureza numa comunidade piscatória galesa, e a comédia radical L’ESPÈCE EXPLOSIVE (França), de Sarah Arnold, sobre o conflito entre agricultores, caçadores e… javalis, um filme que recebeu o prestigiado prémio Europa Label na Quinzena dos Cineastas do Festival de Cannes.
As ameaças provocadas pela modernidade e mudanças climáticas que afetam comunidades pastoris ancestrais surgem retratadas em LET OUR MOUNTAINS LIVE (Noruega), de Håvard Bustnes, onde os pastores de renas sami travam uma luta contra o maior parque eólico da Europa, e IRON WINTER (Austrália, Mongólia), de Kasimir Burgess, observa o compromisso férreo de dois amigos para proteger 2.000 cavalos no rigoroso inverno do deserto da Mongólia.
Os vestígios contemporâneos do poder colonial são bem visíveis nesta seleção oficial, como é o caso do documentário KIKUYU LAND (Quénia), de Andrew H. Brown e Bea Wangondu, filmado nas plantações do chá das terras altas quenianas, e MATERIA PRIMA (Alemanha), de Jens Schanze, sobre a exploração dos grandes depósitos de lítio da Bolívia – ambas as narrativas ecoam de forma diferente na história portuguesa.
Duas grandes questões recorrentes na cinematografia ambiental são abordadas com enorme atualidade em mais dois filmes que figuram nesta seleção: o apartheid climático em BLACK WATER (Espanha), de Natxo Leuza, documenta a crise atual dos refugiados no Bangladesh perante a subida do nível das águas do mar, e as divisões tensas sobre o modelo de produção agrícola observadas de forma cómica em DEREK VS DEREK (Reino Unido), de James Dawson.
E o futuro também é explorado e questionado nesta programação. Os novos desafios políticos, económicos, éticos, tecnológicos e científicos do ativismo ambiental surgem refletidos em dois filmes que desafiam o status quo – o especulativo PLAN C FOR CIVILIZATION (Estados Unidos), de Ben Kalina e o desafiador THE SYSTEM (Países Baixos, Bélgica), de Joris Postema, com música de Lee Ranaldo dos Sonic Youth.
De relevar que, fora da competição, será exibida a longa-metragem animada A REVOLUÇÃO DOS BICHOS (Reino Unido), de Andy Serkis, uma sátira musical a partir da obra Animal Farm de George Orwell.
Já na Seleção Oficial de Longas-Metragens em Língua Portuguesa destaca-se a estreia nacional da ficção especulativa YELLOW CAKE (Brasil), de Tiago Melo, obra que conta com a produção de Kléber Mendonça Filho e Emilie Lescaux (indicados ao Óscar com O Agente Secreto). Esta competição integra ainda a animação NIMUENDAJÚ (Brasil), de Tania Anaya, e os documentários RUA DO PESCADOR Nº 6, (Brasil) de Bárbara Paz, ÁGUA MÃE (Portugal), de Hiroatsu Susuki e Rossana Torres, O AVESSO DO MUNDO (Portugal), de Rita Palma e BAÍA DOS TIGRES (Angola, Portugal), de Carlos Conceição.
De ressalvar que a Seleção Oficial do CineEco 2026 conta ainda com a Competição Internacional de Curtas e Médias-Metragens. Esta secção competitiva reúne 31 novos filmes sobre temáticas diversas, como exploração dos recursos, sustentabilidade, territórios naturais sob ameaça, a ação de povos nativos, gestão de recursos e urbanismo. Destaque para QUIETUDE, do português Gonçalo Almeida, e FELICIDAD, do espanhol Francesco Mastroleo, duas curtas-metragens produzidas no âmbito de uma residência cinematográfica, orientada em 2024 em La Palma pelo cineasta alemão, Werner Herzog”. A vasta abrangência temática das alterações climáticas e do sobreaquecimento global revelam-se na narrativa de ficção científica 1,5 Y MÁS de Miguel Dorado, e na visão poética inerente à curta YOU TOLD US TO TALK ABOUT THE WEATHER, do inglês Harry Tomlin. As questões dos ecossistemas aquáticos têm eco em THE HERRING QUEEN e KOMARNICA: THE WILD THAT REMAINS. A temática da biodiversidade é abordada em LOVE BIRDS, WE ARE ANIMALS e DAWN CHORUS (um filme sobre a beleza do canto dos pássaros pela madrugada, em que se acompanha o músico e filósofo David Rothenberg a captar os sons na floresta para fazer música conjunta com aves).
O tema da paisagem e do território é recorrente nas edições do CineEco e regressa na edição deste ano em filmes como IBRIDO URBANO, FINDING THE LANDSCAPE e LAST TROPICS. Outras questões sempre centrais no festival são as culturas indígenas e ativismos locais, presentes em SAY IT SLOWLY, sobre o tema das línguas e culturas tradicionais, REMIGIA’S LESSONS, que trata da resiliência local através da transmissão de conhecimento, e LOST SONGS OF SUNDARI, uma abordagem sobre a preservação da memória enquanto património imaterial de uma dada cultura. Há ainda filmes focados na reflorestação e na dinâmica terapêutica da flora, como o documentário REPLANTING A GARDEN e a animação PETRA Y EL SOL. As migrações associadas a pressões ambientais ou sociais e as rotas de risco são relatadas em filmes como RISKY ROUTES, que acompanha a migração anfíbia na Suíça, ou na curta de ficção mexicana EL GÜERO, em que um funcionário de uma empresa norte-americana chega a uma cidade costeira do México para supervisionar a construção do primeiro hotel da região.
Na Seleção Oficial de Curtas e Médias-Metragens em Língua Portuguesa contabilizam-se 14 obras e aqui surgem OS BRAVOS, de Catarina Mourão, ALGUMAS COISAS QUE ACONTECEM AO LADO DE UM RIO, de Daniel Soares, ONDE NASCEM OS PIRILAMPOS, de Clara Vieira, filmes com um percurso internacional notável nomeadamente nos festivais de Roterdão e de Cannes.
Não menos importante é a Competição Panorama Regional dedicada a filmes com narrativas centradas no território e na Serra da Estrela, que integra ainda MAÇOS E MARTELOS de Tiago Cerveira, O AVESSO DO MUNDO, de Rita Palma, O PRÓXIMO PRINCÍPIO, de Pedro Nogueira e O ANJO DA GUARDA, de Eduardo Pires. Este ano será exibido em sessão especial fora de competição a longa-metragem LIÇÕES DE FOGO (Finlândia), de John Webster, documentário sobre incêndios em Portugal filmado em Castelo Branco e na aldeia do Sabugueiro, em Seia.
De ressalvar que o CineEco inclui, pela segunda vez, a categoria competitiva de Curtas-Metragens de Ficção, Não Ficção e Animação, na qual concorrem 25 filmes de 15 países.
Consulta lista completa Seleção Oficial CineEco 2026 neste link. Para obter maior detalhe informativo de cada filme, visite aqui.
Informação Adicional:
O CineEco – Festival Internacional de Cinema Ambiental da Serra da Estrela é um dos festivais de cinema sobre ambiente mais antigos do mundo, que se realiza em Seia em outubro e de forma ininterrupta, desde 1995, por iniciativa do Município de Seia.
O CineEco oferece ao público em geral uma programação cuidada e cinematografias pouco conhecidas e alternativas em relação ao mercado tradicional.
O formato do certame assenta num conjunto de atividades desenvolvidas ao longo de oito dias, com entrada gratuita.Além da vertente competitiva, o CineEco inclui também uma componente educativa e diversas atividades paralelas, como conferências, concertos, workshops, exposições, mercado de filmes, contribuindo para uma cidadania ativa no domínio do desenvolvimento sustentável, valorização do território, educação e enriquecimento do conhecimento ambiental e cinematográfico.
Fora das datas do festival e ao longo de todo o ano, tem lugar uma vasta rede de extensões por todo o país, dando oportunidade ao público a visualização de filmes que fazem parte da programação oficial, que é um dos fatores diferenciadores do festival.
O CineEco é organizado pelo Município de Seia e conta com o Alto Patrocínio do Presidente da República e do Departamento de Ambiente das Nações Unidas. Conta ainda com o apoio financeiro da DGArtes.
A programação do Festival é da responsabilidade de Cláudia Marques Santos, Daniel Oliveira e Tiago Alves.